Prof. Ms. José Guilherme Almeida
INTRODUÇÃO
Muitas vezes utilizamos o termo “dança ministerial” para nos referirmos à dança que fazemos dentro de nossas igrejas. Por vezes, esse termo tenta diferenciar a dança que é feita no meio secular da dança que é feita no contexto cristão.
Porém, para entendermos melhor esse uso e se ele é válido, primeiro precisamos entender qual é o conceito de ministério à luz da Bíblia, a fim de ampliar nossa compreensão do tema. E é isso que este texto busca fazer.

O QUE É MINISTÉRIO?
Atualmente falamos muito dos 05 ministérios: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Essa lista foi dada por Paulo em Efésios 4:11, porém, a palavra “ministério” não aparece nesse texto. No versículo 12, Paulo nos dá o motivo pelo qual alguns receberam este dom de Deus, que é o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo:
E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo (Efésios 4:11,12 – NAA).
Assim, podemos pensar que, no seu sentido mais geral, o termo ministério aparece na Bíblia com o sentido de “serviço”.
No Antigo Testamento, o termo está associado aos serviços prestados pelos levitas, sacerdotes e profetas no templo ou no seu chamado:
— Venham todos os homens hábeis entre vocês e façam tudo o que o Senhor ordenou: […] as vestes do ministério para ministrar no santuário, as vestes santas do sacerdote Arão e as vestes de seus filhos, para oficiarem como sacerdotes (Êxodo 35:10 e 19 – NAA)
O serviço deles era ajudar os filhos de Arão no ministério da Casa do Senhor, nos átrios e nas câmaras, na purificação de todas as coisas sagradas e na obra do ministério da Casa de Deus (1 Crônicas 23:28 – NAA).
Davi, juntamente com os chefes do serviço, separou para o ministério os filhos de Asafe, de Hemã e de Jedutum, para profetizarem com harpas, liras e címbalos. A lista dos encarregados neste ministério foi […] (1 Crônicas 25:1 – NAA).
Já no Novo Testamento, este tem uma aplicação mais abrangente, como a atuação da morte, dos anjos, das autoridades humanas, dos apóstolos, do Espírito Santo e do próprio Jesus, mas sempre com o sentido de serviço, de fazer uma ação/trabalho, seja ou não em prol do Reino de Deus.
Quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra (Atos 6:4 – NAA).
Qual dos profetas os pais de vocês não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vocês agora se tornaram traidores e assassinos, vocês que receberam a lei por ministério de anjos e não a guardaram (Atos 7:52,53 – NAA).
É por isso também que vocês pagam impostos, porque as autoridades são ministros de Deus, atendendo constantemente a este serviço. (Romanos 13:6 – NAA)
E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de glória, a ponto de os filhos de Israel não poderem fixar os olhos na face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, ainda que fosse uma glória que estava desaparecendo, como não será de maior glória o ministério do Espírito? Porque, se o ministério da condenação teve glória, em muito maior proporção será glorioso o ministério da justiça (2 Coríntios 3:7 – NAA).
Portanto, o ministério é algo temporal, associado a exercer uma função, um trabalho. Não é algo vitalício, como Zacarias que terminou os dias do seu ministério (Lucas 1:23), ou Judas Iscariotes que se desviou do seu ministério, e teve Matias como seu substituto (Atos 1:24-26).
O próprio Jesus não viveu o seu ministério desde criança. Apesar da sabedoria que demonstrou perante os mestres da Lei aos 12 anos quando visitou Jerusalém por ocasião da Festa da Páscoa (Lucas 2:41-51), a Bíblia considera que o Messias iniciou o seu ministério aos 30 anos, após o seu batismo (Lucas 3:23).
De modo nenhum devemos compreender o serviço, o exercer de uma função, como algo negativo ou associado a escravidão do pecado. O ser humano trabalha desde antes da Queda (Gênesis 1:28-30 e 2:15, 19-20). O Deus Pai e o Deus Filho trabalham (João 5:17), Jesus serviu aos seus discípulos nos dando exemplo (João 13:14-25), e ao ser humano cabe continuar as obras, ou seja, o trabalho de Jesus (João 14:12).
Podemos assim compreender que o ministério cristão está associado ao investimento de tempo e esforço para a edificação do Reino. Esse serviço é parte da natureza humana, mas também é parte da nossa gratidão à Deus, e o fazemos em um íntimo relacionamento com Ele. Logo, quando falamos que fazemos parte de um ministério, estamos dizendo que servimos através daquela área.
Mas o que direciona o serviço específico, o nosso ministério individual? Posso dizer que o ministério individual é definido pelo dom que recebemos do Espírito Santo.

OS DONS E O MINISTÉRIO INDIVIDUAL
Quando falamos dos 05 ministérios em Efésios 4:11, na verdade, estamos falando de tipos de dom (LOYD-JONES, 2003; GRUDEM, 2017). Essa lista se soma a outras várias listas de dons abordados por Paulo em suas cartas: Romanos 12:6-8; 1 Coríntios 7:7, 12:8-10 e 28; e 1 Pedro 4:11. Todos estes tem como objetivo o bem comum e a edificação da Igreja, e podemos incluir aqui tanto dons naturais como o ensino e administração, quanto dons de caráter sobrenatural como profecia, cura ou discernimento de espíritos.
A lista de Romanos 12 é muito bem aplicável aqui. No versículo 7, o termo ministério aparece em destaque entre vários outros dons. No grego, o termo original para “ministério” é diakonia, ou seja, serviço. A mesma palavra é encontrada na lista de 1 Pedro 4:10-11:
Sirvam uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como encarregados de administrar bem a multiforme graça de Deus. Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus lhe dá (1 Pedro 4:10, 11a – NAA).
Portanto, o propósito dos dons é sempre o seu uso no ministério, seja este o serviço direto, como é função dos diáconos segundo a Bíblia, ou o uso dos dons como ensino, profecia, cura, discernimento, ou qualquer outro dado pelo Espírito para servir ao próximo e contribuir para a edificação do corpo de Cristo.
Alguns nascem com maior facilidade para aprender matemática, outros, geografia ou história. Também podemos nascer com propensões para atuar em várias áreas, como cantar, dançar, escrever, cozinhar, etc. É ao longo da nossa vida que desenvolvemos essas habilidades dependendo das condições sociais que temos, como a influência da nossa família, a possibilidade de estudar um instrumento musical ou fazer aulas de dança. Porém, essa habilidade natural só será transformada em um dom quando o Espírito Santo agir sobre nós, ampliando nossa capacidade a nível natural e sobrenatural.
Nas palavras de Grudem (2017, p.859): “dom espiritual é qualquer talento potencializado pelo Espírito Santo e usado no ministério da igreja”. Ou seja, as listas de Paulo não contém todos os dons existentes, mas exemplos dos dons usados no serviço eclesiástico. O teólogo comenta que não é fácil definir a quantidade de dons existentes, ou de modos de serviço na igreja, pois a capacitação do Espírito pode variar de pessoa para pessoa. Por isso, identifica outros dons que não estão presentes nas listas de Paulo como o da oração intercessória ou o dom musical (GRUDEM, 2017).
Isso nos indica que os talentos artísticos como a dança, a pintura, a interpretação, entre outros, também podem ser considerados dons se forem alvo de uma capacitação sobrenatural do Espírito.
Assim, qualquer habilidade, quando utilizada para o serviço do Reino de Deus e potencializada pela ação do Espírito, pode se tornar um ministério. Isso é ministério: servir. E para que este serviço seja feito com qualidade e contribua efetivamente para as pessoas a quem eu sirvo, o Espírito Santo nos capacita com os dons.
Todos são chamados a algum serviço, como Paulo indica em Romanos 12:3, e Loyd-Jones (2003, p.199) enfatiza:
Devemos, pois, aprender a pensar na Igreja como uma comunidade viva de pessoas: cada uma delas tem fé, cada uma delas tem vida oriunda de Deus, cada uma delas, homem ou mulher, tem um dom que lhe foi dado, e cada uma delas tem uma função a exercer na vida total da Igreja.
Para que este serviço seja melhor organizado, já que cada membro tem algo a executar no corpo, nos dividimos em grupos, em equipes de trabalho nas nossas igrejas. Daí surgem os ministério de crianças, de casais, de intercessão, de louvor, de dança, e por aí vai. Ou seja, o termo ministério tomou uma nova conotação, de ajuntamento de pessoas organizadas em prol da realização de um, ou alguns, serviços na comunidade cristã.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao entendermos o termo “ministério” como sinônimo de “serviço”, passamos a compreender que todas as habilidades e dons que recebemos são para contribuir com a execução do maior mandamento: amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Mateus 22:36-40), ajudando a edificar o corpo de Cristo em sua diversidade.
Cada ser humano possui habilidades e é capacitado pelo Espírito Santo com dons para fazer parte desta edificação do corpo. Assim, a necessidade de organização desse serviço nos levou a usar o termo “ministério” como sinônimo das áreas de serviço dentro da igreja, a mesma perspectiva presente na Bíblia.
Assim, o ministério de dança nada mais é do que um conjunto de pessoas que serve a sua igreja a partir da dança.
ASSISTA AOS VIDEOS RELACIONADOS
REFERÊNCIAS
GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. 2. ed. 4. reimp. São Paulo: Vida Nova, 2017.
LOYD-JONES, D. M. Romanos. Exposição sobre o Capítulo 12: o comportamento cristão. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas (PES), 2003.